Pampa: o bioma exclusivo do Sul e por que está em risco
O bioma Pampa é o único ecossistema brasileiro restrito a um só estado: o Rio Grande do Sul. Cobre 193.836 km² (IBGE, 2019), o que equivale a 69% do território gaúcho e a 2,3% do Brasil. É marcado por campos abertos, gramíneas e relevo suave. Apesar da aparência discreta, perdeu 30,3% da vegetação nativa entre 1985 e 2024 e hoje é o segundo bioma mais antropizado do país, segundo o MapBiomas.
- O que é o bioma Pampa e onde ele se localiza
- Quais espécies de fauna e flora são endêmicas da região
- Por que o Pampa é o bioma com a maior perda proporcional de vegetação nativa
- Os dados oficiais de desmatamento de 2024 (MapBiomas)
- O que está sendo feito para proteger o Pampa
O que é o bioma Pampa?
O Pampa é um bioma de campos naturais que cobre o sul da América do Sul. No Brasil, ocorre apenas no Rio Grande do Sul. A palavra pampa vem do quíchua e significa “região plana” — uma referência ao relevo suave e aos vastos campos sem floresta densa.
O bioma é considerado um dos seis biomas continentais brasileiros oficialmente reconhecidos pelo IBGE, ao lado de Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Amazônia. Em conjunto com o pampa do Uruguai e da Argentina, ele forma uma unidade ecológica chamada Campos do Rio da Prata, que ultrapassa 700 mil km².
Onde fica o Pampa e qual é sua extensão?
O bioma ocupa toda a metade sul do Rio Grande do Sul e parte da metade norte. Sua área total no Brasil é de 193.836 km², segundo o IBGE. Isso corresponde a:
- 69% do território do Rio Grande do Sul;
- 2,3% do território brasileiro;
- uma extensão maior do que países como Uruguai (176 mil km²) ou Síria (185 mil km²).
O bioma é o único brasileiro presente em apenas um estado. Por isso, a responsabilidade pela conservação recai principalmente sobre o Rio Grande do Sul, embora o tema seja de interesse nacional.
Clima e relevo do Pampa
O clima da região é subtropical úmido, com chuvas distribuídas ao longo do ano. As temperaturas variam bastante entre as estações: o verão é quente, com médias acima de 25 °C; o inverno é rigoroso, com geadas frequentes e médias entre 12 °C e 14 °C. A temperatura média anual fica em torno de 18 °C.
O relevo é dominado por coxilhas — pequenas elevações arredondadas que dão ao bioma um aspecto de “ondas verdes”. Há também áreas planas, várzeas e afloramentos rochosos. Essa combinação gera microclimas e habitats variados em uma paisagem que, à primeira vista, parece uniforme.
Flora do Pampa: gramíneas, arbustos e endemismos
A vegetação local é predominantemente herbácea. Estima-se que existam cerca de 3.000 espécies de plantas nesse ecossistema, sendo as gramíneas o grupo mais abundante. As árvores aparecem em formações chamadas matas ciliares, ao longo de rios e córregos, ou em pequenos capões isolados.
Entre os grupos vegetais marcantes estão:
- Gramíneas: capim-rabo-de-burro (Andropogon lateralis), grama-tapete (Axonopus affinis), capim-mimoso (Axonopus compressus);
- Leguminosas forrageiras: trevo-vermelho (Trifolium), cornichão (Lotus corniculatus);
- Arbustos e árvores: butiazeiro (Butia odorata), umbu (Phytolacca dioica), ariticum (Annona neosalicifolia);
- Plantas ornamentais nativas: capim-dos-pampas (Cortaderia selloana), petúnia silvestre (Calibrachoa heterophylla).

Pesquisadores apontam a falta de atualização das listas oficiais de flora ameaçada como um dos maiores problemas para a conservação botânica do bioma, conforme reportagem do jornal Extra Classe publicada em 2025.
Fauna do Pampa: mamíferos, aves e espécies endêmicas
A região abriga mais de 100 espécies de mamíferos terrestres, além de centenas de aves, répteis, anfíbios e peixes. Muitas são endêmicas — ou seja, só existem nesse bioma.
Mamíferos típicos
- Veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus): herbívoro adaptado aos campos abertos, ameaçado de extinção;
- Graxaim-do-campo (Lycalopex gymnocercus): pequeno canídeo silvestre;
- Zorrilho (Conepatus chinga): mamífero parente do gambá, conhecido pelo cheiro forte;
- Tuco-tucos (gênero Ctenomys): roedores subterrâneos que cavam galerias no solo;
- Preá (Cavia aperea): roedor parente da cobaia doméstica.

Aves
Os campos sulinos são rota de aves migratórias e abrigam espécies de grande porte adaptadas a campos. Entre as mais conhecidas:
- Ema (Rhea americana): a maior ave brasileira, símbolo dos campos;
- Quero-quero (Vanellus chilensis): ave-símbolo do Rio Grande do Sul;
- Caboclinho-de-barriga-verde (Sporophila ruficollis): pequeno pássaro ameaçado de extinção;
- Beija-flor-de-barba-azul (Heliomaster furcifer): espécie endêmica do Pampa platino.

Anfíbios e endemismos
Entre as espécies endêmicas do Pampa brasileiro destacam-se o tuco-tuco-das-dunas (Ctenomys flamarioni), restrito ao litoral gaúcho, e o sapinho-de-barriga-vermelha (Melanophryniscus atroluteus). Esses animais ocorrem apenas em ambientes muito específicos do bioma, o que os torna especialmente vulneráveis à perda de habitat.
Por que o Pampa é o bioma mais ameaçado proporcionalmente?
De acordo com o relatório do MapBiomas divulgado em outubro de 2025, o bioma registrou a maior perda proporcional de vegetação nativa entre os biomas brasileiros nos últimos 40 anos. A área de campo nativo recuou de 9,8 milhões de hectares em 1985 para 5,9 milhões de hectares em 2024 — uma queda de 30,3%.
Em 2024, 45,6% do território do bioma estavam ocupados por algum tipo de uso humano, com predominância de:
- Agricultura e mosaico de usos: 41% (com destaque para soja, arroz e milho);
- Silvicultura: 4% (especialmente eucalipto e pinus);
- Pecuária extensiva tradicional: parte importante dos campos remanescentes.
Essa cobertura coloca o bioma como o segundo bioma brasileiro com menor percentual de vegetação nativa, atrás apenas da Mata Atlântica. Em 1985, 45% dos municípios do bioma tinham a agricultura como principal uso do solo. Em 2024, esse percentual saltou para 64% — um avanço expressivo da fronteira agrícola sobre os campos.
Existe ainda um problema de percepção: por ser formado por gramíneas e poucas árvores, ele é frequentemente confundido com “área de pasto natural” ou “terra à espera de plantio”. Essa visão equivocada dificulta políticas de conservação tão consolidadas quanto as que protegem florestas, como a restauração florestal por sistemas agroflorestais.
Espécies ameaçadas de extinção no Pampa
Segundo levantamento do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), divulgado pela plataforma SALVE, o bioma abriga 194 espécies da fauna ameaçadas de extinção — cerca de 14,5% das espécies que ocorrem no bioma. Embora o número absoluto seja menor que o de Mata Atlântica e Cerrado, a proporção é semelhante.
Entre as espécies em risco estão:
- Veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus) — em perigo;
- Caboclinho-de-barriga-verde (Sporophila ruficollis) — vulnerável;
- Picapauzinho-chorão (Dryobates mixtus) — vulnerável;
- Gato-do-mato-grande (Leopardus geoffroyi) — vulnerável;
- Tuco-tuco-das-dunas (Ctenomys flamarioni) — em perigo, endêmico.
Pesquisadores do Rio Grande do Sul apontam que a lista oficial de flora ameaçada do estado, editada em 2018 pela então Fundação Zoobotânica, ainda não foi revisada — o que atrasa políticas públicas voltadas à conservação botânica do bioma.
O que está sendo feito para conservar o Pampa?
Em 2024, o desmatamento na região registrou queda de 42,1%, segundo o Relatório Anual de Desmatamento (RAD) do MapBiomas: foram 896 hectares desmatados, contra 1.547 hectares em 2023. A redução acompanha a tendência geral do Brasil, que viu o desmatamento cair 32,4% no mesmo período, segundo dados oficiais do governo federal.
Algumas frentes de ação se destacam:
- Reservas da Biosfera: a Reserva da Biosfera do Pampa, articulada pela Rede Brasileira de Reservas da Biosfera (RBRB), reúne áreas protegidas e zonas de manejo sustentável;
- Pecuária sobre campo nativo: prática tradicional que mantém a vegetação herbácea e tem sido valorizada como alternativa ao plantio de soja em larga escala;
- Pagamento por serviços ambientais: programas estaduais começam a remunerar produtores que mantêm áreas de campo nativo em suas propriedades;
- 17 de dezembro – Dia do Bioma Pampa: data instituída para mobilizar a sociedade em torno da conservação do bioma.
Pesquisadores e órgãos como Embrapa Pecuária Sul e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) apontam que o futuro do bioma depende de combinar ciência, política pública e valorização cultural — afinal, o bioma faz parte da identidade gaúcha desde a colonização. Estratégias semelhantes às do carbono azul em manguezais ou da conservação de turfeiras ganham espaço também aqui, com estudos sobre o estoque de carbono nas raízes profundas das gramíneas nativas.
Perguntas frequentes sobre o bioma Pampa
O Pampa é exclusivo do Brasil?
Não. Não. O bioma brasileiro é parte de uma unidade ecológica maior, chamada Campos do Rio da Prata, que se estende pelo Uruguai e norte da Argentina. No território nacional, contudo, ocorre apenas no Rio Grande do Sul.
Qual é o maior problema ambiental do bioma?
A conversão de campos nativos em lavouras de soja, arroz e milho e em plantações de eucalipto e pinus. Esse avanço da fronteira agrícola é a principal causa da perda de 30,3% da vegetação nativa nos últimos 40 anos, segundo o MapBiomas.
Quais animais são símbolos do bioma?
O quero-quero é a ave-símbolo do Rio Grande do Sul. Já o veado-campeiro, a ema e o graxaim-do-campo são animais característicos da paisagem pampeana e aparecem com frequência em representações culturais do bioma.
O bioma armazena carbono?
Sim. As raízes profundas das gramíneas nativas armazenam grande quantidade de carbono no solo, função muitas vezes esquecida quando o bioma é convertido para outros usos. Pesquisas recentes apontam o esse bioma como um aliado importante no combate às mudanças climáticas.
Como o Pampa difere do Cerrado?
Enquanto o Cerrado é uma savana tropical com árvores tortuosas e estação seca marcada, ele é um campo subtropical úmido, com chuvas distribuídas ao longo do ano e vegetação dominada por gramíneas. As fisionomias são diferentes, mas ambos enfrentam pressão da fronteira agrícola.
Conclusão: por que vale defender o Pampa
Esse bioma é, ao mesmo tempo, um bioma silencioso e urgente. Silencioso porque sua paisagem aberta passa despercebida quando comparada à grandiosidade da floresta amazônica ou ao mosaico do Cerrado. Urgente porque a velocidade da perda de vegetação nativa o aproxima do colapso ecológico em escala humana.
Conservar o Pampa significa proteger biodiversidade endêmica, manter o estoque de carbono no solo, valorizar uma cultura pastoril centenária e garantir serviços ambientais que beneficiam a agricultura e a pecuária da região. Os dados oficiais de 2024 mostram que é possível reduzir o desmatamento — mas o esforço precisa de continuidade, fiscalização e participação da sociedade.
