Manguezais: O Que São, Importância Ecológica e as Ameaças que Colocam Este Ecossistema em Risco

Imagine uma floresta que cresce dentro do mar, com raízes entrelaçadas emergindo da lama, servindo de abrigo para caranguejos, peixes, aves e até jacarés. Esse é o manguezal: um ecossistema único, localizado na zona de contato entre a terra e o oceano, nos litorais tropicais e subtropicais do mundo. Mais do que uma paisagem exótica, os manguezais são fundamentais para o equilíbrio do planeta — e estão desaparecendo a uma velocidade alarmante.
O Brasil possui a maior área de manguezais do mundo, com aproximadamente 1,4 milhão de hectares distribuídos ao longo de toda a sua costa, do Amapá até Santa Catarina. Apesar dessa riqueza, cerca de 25% desse ecossistema já foi destruído, segundo dados da Agência Brasil. Entender o que são os manguezais, por que eles são tão valiosos e quais ameaças enfrentam é essencial para qualquer pessoa preocupada com o futuro do meio ambiente.
O Que São os Manguezais?
Os manguezais são ecossistemas costeiros formados por vegetação adaptada a ambientes de água salgada ou salobra, em solos lodosos e periodicamente alagados pelas marés. Eles ocorrem nas zonas intertropicais e subtropicais, entre o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio, embora também apareçam em algumas regiões mais temperadas.
A vegetação característica é formada por diferentes espécies de mangue — sendo as principais o mangue-vermelho (Rhizophora mangle), o mangue-preto (Avicennia germinans) e o mangue-branco (Laguncularia racemosa). Cada espécie possui adaptações especiais para sobreviver no ambiente salino e com pouco oxigênio no solo, como as famosas raízes escora (ou pneumatóforos), que funcionam como “pernas” que sustentam a planta na lama e permitem a troca de gases com o ar.
No Brasil, os manguezais se concentram principalmente nos estados do Maranhão, Pará e Amapá, que juntos abrigam cerca de 80% de toda a área de manguezal do país. O Maranhão lidera com mais de 512 mil hectares, de acordo com novo mapeamento divulgado pelo IBAMA e pelo Ministério do Meio Ambiente em março de 2026.
A Biodiversidade Impressionante dos Manguezais
Os manguezais são frequentemente chamados de “berçários do mar” — e com razão. Suas raízes submersas formam um labirinto de abrigos e fontes de alimento para uma enorme variedade de espécies. Peixes, crustáceos, moluscos, aves, répteis e mamíferos dependem diretamente desse ecossistema em alguma fase de suas vidas.
Muitas espécies de peixes comercialmente importantes, como robalos, tainhas e bagres, passam suas fases larvais e juvenis nos manguezais, protegidas das correntes e dos predadores do mar aberto. O caranguejo-uçá (Ucides cordatus), um dos símbolos mais conhecidos desse ambiente, é fonte de renda para milhares de famílias no litoral brasileiro. Além disso, aves migratórias de diversas partes do mundo utilizam os manguezais como parada alimentar em suas longas jornadas.

Manguezais e o Carbono Azul: Aliados do Clima
Além de sua riqueza em biodiversidade, os manguezais desempenham um papel estratégico no combate às mudanças climáticas. Eles são reconhecidos como importantes fontes de “carbono azul” (blue carbon) — o carbono capturado e armazenado por ecossistemas costeiros. O solo do manguezal é capaz de estocar matéria orgânica por milhares de anos, acumulando enormes quantidades de carbono que, se liberadas, contribuiriam significativamente para o aquecimento global.
Estudos indicam que os manguezais sequestram carbono de forma muito mais eficiente do que florestas tropicais em terra firme, armazenando entre 3 e 5 vezes mais carbono por hectare. Isso os torna ativos valiosos não apenas para a biodiversidade, mas também para as metas climáticas globais estabelecidas pelo Acordo de Paris. A destruição desses ecossistemas, portanto, representa um duplo prejuízo: perda de biodiversidade e emissão massiva de carbono estocado nos sedimentos.
Serviços Ecossistêmicos e Valor Econômico
Os manguezais oferecem uma gama de serviços ambientais essenciais para as comunidades humanas que vivem no litoral. Funcionam como barreiras naturais contra a erosão costeira, reduzindo o impacto de tempestades, marés altas e até tsunamis. Suas raízes retêm sedimentos, filtrando a água e mantendo a qualidade dos estuários e das praias adjacentes.
Do ponto de vista econômico, os benefícios são igualmente expressivos. Segundo dados da Synergia Consultoria Socioambiental, com base em estudos do PNUMA, os manguezais geram ao Brasil serviços ecossistêmicos estimados em US$ 5 bilhões por ano, considerando atividades como pesca artesanal, turismo de natureza e proteção costeira. Comunidades inteiras de pescadores e marisqueiras dependem diretamente da produtividade desse ambiente para seu sustento diário.
As Principais Ameaças aos Manguezais
Apesar de sua importância, os manguezais estão sob crescente pressão humana. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), 67% dos manguezais do planeta já foram perdidos ou degradados ao longo das últimas décadas. As ameaças são múltiplas e se somam de forma preocupante.
A urbanização desordenada é uma das principais causas de destruição: bairros, portos e infraestrutura de turismo avançam sobre áreas de manguezal sem planejamento adequado. A aquicultura intensiva — especialmente a carcinicultura (criação de camarão em cativeiro) — converteu extensas faixas de manguezal em viveiros no Nordeste do Brasil. O lançamento de esgoto doméstico e industrial sem tratamento adequado também degrada o ecossistema, alterando sua química e eliminando espécies sensíveis. Por fim, as mudanças climáticas trazem um novo nível de ameaça: a elevação do nível do mar, o aumento da temperatura da água e eventos climáticos extremos comprometem a capacidade de regeneração do manguezal. Um relatório científico de 2024 alertou que quase um quinto dos manguezais do mundo (19,6%) está nas classes mais severas de risco de extinção.
Como Proteger os Manguezais?
No Brasil, os manguezais têm proteção legal desde o Código Florestal (Lei 12.651/2012), que os classifica como Áreas de Preservação Permanente (APPs). Cerca de 87% dos manguezais brasileiros estão dentro de unidades de conservação, incluindo 122 UCs federais e estaduais. O governo federal também lançou o ProManguezal, programa voltado para a conservação, recuperação e uso sustentável desse bioma.
No entanto, a fiscalização ainda enfrenta dificuldades, e a legislação nem sempre é cumprida. A sociedade civil, as comunidades pesqueiras, os pesquisadores e os gestores públicos precisam atuar de forma integrada para garantir que esses ecossistemas sobrevivam às pressões do desenvolvimento. Iniciativas de reflorestamento de manguezal, monitoramento via satélite e educação ambiental para comunidades costeiras são passos concretos que já mostraram resultados positivos em diferentes partes do Brasil e do mundo.
Conclusão: O Manguezal Precisa de Nós
Os manguezais são muito mais do que uma paisagem singular nas bordas do litoral. São ecossistemas multifuncionais que sustentam a biodiversidade marinha, protegem comunidades costeiras, capturam carbono e geram riqueza econômica de forma sustentável. Perdê-los significa perder não apenas espécies e habitats, mas também uma defesa natural contra as mudanças climáticas — e uma fonte de vida para milhões de pessoas.
Na próxima vez que você visitar uma praia ou mangue, observe com atenção aquelas raízes que emergem da lama. Elas sustentam muito mais do que as árvores: sustentam ecossistemas inteiros, comunidades, e o equilíbrio de todo o litoral. Preservar os manguezais é preservar a vida.
