Projeto TAMAR: Como Nasceu e o que Faz a Maior Iniciativa de Conservação de Tartarugas Marinhas do Brasil

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Tartaruga-verde nadando em águas brasileiras, espécie protegida pelo Projeto TAMAR

Quando o sol se põe nas praias do litoral brasileiro, uma cena que se repete há mais de quatro décadas continua emocionando biólogos, turistas e moradores locais: fêmeas de tartarugas marinhas saem do mar, escavam ninhos na areia e depositam dezenas de ovos. Algumas semanas depois, filhotes minúsculos rompem as cascas e correm em direção às ondas. Nada disso seria possível, na escala em que acontece hoje, sem o trabalho do Projeto TAMAR.

Criado em 1980, o TAMAR é hoje uma das iniciativas de conservação marinha mais reconhecidas do mundo. Ele transformou comunidades pesqueiras em aliadas das tartarugas, formou gerações de pesquisadores e ajudou a tirar espécies da beira da extinção. Neste artigo, você vai entender como o projeto surgiu, o que ele faz na prática e por que sua história importa para o futuro dos oceanos.

O que é o Projeto TAMAR e como ele começou

O nome TAMAR é a junção das duas primeiras sílabas de “tartaruga marinha”. O projeto foi criado em 1980 pelo antigo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) e, atualmente, está vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão do Ministério do Meio Ambiente. Sua execução é feita em parceria com a Fundação Pró-TAMAR, organização sem fins lucrativos, e conta com patrocínio oficial da Petrobras há décadas.

A iniciativa nasceu quando jovens biólogos perceberam que ovos e fêmeas de tartarugas marinhas estavam sendo dizimados em praias do Nordeste, principalmente para consumo humano e venda informal. Naquela época, as cinco espécies que ocorrem no Brasil já figuravam em listas internacionais de animais ameaçados. A resposta foi montar bases de pesquisa diretamente nas praias de desova, envolvendo pescadores locais como protetores dos ninhos, e não mais como caçadores.

As cinco espécies protegidas pelo TAMAR

O Brasil é um dos poucos países que abriga, em seu litoral, cinco das sete espécies de tartarugas marinhas existentes no planeta. Todas elas são alvo das ações do TAMAR:

  • Tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) — a mais comum nas praias brasileiras de desova, especialmente na Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Sergipe.
  • Tartaruga-verde (Chelonia mydas) — herbívora quando adulta, é a espécie mais avistada por mergulhadores em áreas como Fernando de Noronha.
  • Tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata) — historicamente explorada pelo casco usado em artesanato; é considerada criticamente ameaçada.
  • Tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea) — desova principalmente em Sergipe e no norte da Bahia.
  • Tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) — a maior de todas, pode ultrapassar 600 kg; sua principal área reprodutiva no Brasil está no litoral norte do Espírito Santo.

De acordo com a atualização da lista nacional de espécies ameaçadas publicada pelo ICMBio em 2022, quatro dessas cinco espécies seguem em algum grau de ameaça de extinção, o que reforça a importância de manter o monitoramento ativo.

Como o TAMAR atua: bases, ciência e comunidades

O modelo de atuação do projeto é descentralizado. Existem cerca de 25 bases de pesquisa e conservação distribuídas por nove estados brasileiros — Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e o arquipélago de Fernando de Noronha. Juntas, essas bases monitoram mais de 1.100 km de praias durante a temporada reprodutiva, que vai de setembro a março na maior parte do litoral.

O trabalho de campo segue um protocolo rigoroso. Equipes percorrem as praias diariamente, identificam novos ninhos, marcam sua localização com GPS e, quando necessário, transferem os ovos para áreas cercadas ou para incubadoras controladas. Cada fêmea reprodutora é, sempre que possível, identificada com anilhas que permitem acompanhar sua trajetória ao longo dos anos.

Além da proteção direta dos ninhos, o TAMAR mantém um robusto programa científico. Seus pesquisadores publicam estudos sobre genética populacional, rotas migratórias, impacto da pesca incidental e efeitos das mudanças climáticas na proporção de machos e fêmeas — já que o sexo dos filhotes é determinado pela temperatura da areia.

Resultados em números: décadas de impacto

Os resultados acumulados pelo projeto são impressionantes. Desde sua criação, o TAMAR já liberou mais de 40 milhões de filhotes de tartarugas marinhas no mar brasileiro. Em algumas temporadas recentes, foram registradas mais de 35 mil desovas apenas nas áreas monitoradas pela Fundação Projeto TAMAR — número que, na década de 1980, era apenas uma fração disso.

Um caso emblemático é o de Fernando de Noronha. Estudos consolidados pelo Centro TAMAR/ICMBio mostraram que a média anual de ninhos de tartaruga-verde no arquipélago saltou de cerca de 38 ninhos por ano, entre 1988 e 1992, para várias centenas nos últimos anos de monitoramento. Esse crescimento é interpretado pelos cientistas como uma resposta direta a décadas de proteção contínua das praias e das águas adjacentes.

Outro indicador importante é a queda no consumo de ovos e da captura intencional de adultos. Em vilas onde antes essa prática era comum, jovens hoje trabalham como agentes ambientais, monitores de turismo e técnicos de laboratório, em um ciclo virtuoso entre conservação e geração de renda.

Educação ambiental e turismo de base comunitária

Mais do que pesquisa, o TAMAR é também um projeto cultural. Seus Centros de Visitantes — em locais como Praia do Forte (BA), Fernando de Noronha (PE), Ubatuba (SP), Vitória (ES) e Praia do Cassino (RS) — recebem cerca de 1 milhão de visitantes por ano. Esses espaços combinam museus, aquários, palestras, recintos com tartarugas em recuperação e atividades para crianças.

Organizações como o WWF-Brasil destacam o papel do TAMAR como modelo de conservação integrada, especialmente em áreas insulares como Fernando de Noronha, onde turismo, pesca artesanal e proteção da biodiversidade precisam coexistir. A National Geographic Brasil também já apontou as praias geridas pelo projeto entre os melhores destinos do país para observar tartarugas marinhas em seu ambiente natural, sempre respeitando regras de aproximação.

Ameaças que ainda persistem

Apesar dos avanços, as tartarugas marinhas continuam sob forte pressão. Entre as principais ameaças atuais estão:

  • Pesca incidental: redes de espera, espinhéis e arrasto matam milhares de tartarugas por ano em todo o Atlântico.
  • Poluição plástica: sacolas e fragmentos são confundidos com águas-vivas, principal alimento de algumas espécies.
  • Mudanças climáticas: a elevação da temperatura da areia tende a feminizar as populações, e o aumento do nível do mar ameaça áreas de desova.
  • Iluminação artificial nas praias: desorienta filhotes recém-nascidos, que confundem luzes urbanas com o brilho do horizonte sobre o mar.
  • Ocupação desordenada do litoral: reduz a quantidade de praias seguras para a reprodução.

O TAMAR atua diretamente nessas frentes, com programas como o de redução da captura incidental, articulado com frotas pesqueiras, e campanhas de conscientização para hotéis e moradores reduzirem o impacto da iluminação noturna.

Como você pode apoiar a causa

Você não precisa ser biólogo nem morar no litoral para contribuir. Algumas atitudes simples ajudam diretamente o trabalho do TAMAR e das tartarugas marinhas:

  • Reduza o consumo de plásticos descartáveis e descarte corretamente os resíduos, principalmente em viagens à praia.
  • Se encontrar uma tartaruga encalhada, ferida ou desorientada, acione imediatamente o TAMAR ou os órgãos ambientais locais — não tente devolvê-la ao mar por conta própria.
  • Visite os Centros de Visitantes oficiais. O ingresso ajuda a financiar a conservação.
  • Apoie pousadas e estabelecimentos que adotam práticas como apagar luzes voltadas para a praia durante a temporada reprodutiva.
  • Compartilhe informações confiáveis sobre o projeto: a educação ambiental é uma das ferramentas mais poderosas que ele possui.

Filhotes de tartaruga marinha caminhando em direção ao mar após eclosão dos ovos

Conclusão: uma história que ainda está sendo escrita

O Projeto TAMAR é, ao mesmo tempo, ciência, política pública e mobilização social. Em mais de 45 anos de atuação, mostrou que é possível reverter quadros aparentemente irreversíveis, desde que haja método, continuidade e diálogo com as comunidades costeiras. Cada filhote que rompe a casca, atravessa a areia e mergulha no Atlântico carrega, de algum modo, a impressão digital desse esforço coletivo.

O desafio agora é manter o ritmo diante de novas ameaças, especialmente as mudanças climáticas. Que tal aproveitar sua próxima ida ao litoral para conhecer uma base do TAMAR de perto — ou, ao menos, repensar pequenos hábitos que afetam o oceano? As tartarugas existem há mais de 100 milhões de anos. Garantir que continuem por aqui depende, também, das escolhas que cada um de nós faz na próxima década.