Carbono azul: o tesouro escondido nos oceanos e manguezais que pode ajudar a frear a crise climática

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Quando se fala em florestas como aliadas do clima, a Amazônia e os outros grandes biomas terrestres roubam quase toda a atenção. Mas existe um outro tipo de “floresta” — encharcada, salgada e muitas vezes invisível ao olhar urbano — que pode ser ainda mais eficiente em capturar gás carbônico da atmosfera. Manguezais, marismas e pradarias de gramas marinhas formam o que cientistas chamam de ecossistemas de carbono azul, peças cada vez mais valorizadas no enfrentamento das mudanças climáticas.

O nome pode soar técnico, mas a ideia é simples: o carbono azul é o carbono que oceanos e ambientes costeiros conseguem retirar do ar e armazenar por séculos, ou até milênios, em seus solos alagados e em sua biomassa. Em um mundo que precisa reduzir emissões de gases de efeito estufa, esses ecossistemas funcionam como verdadeiros sumidouros naturais — e o Brasil, com sua imensa zona costeira, é um dos países que mais têm a ganhar (e a perder) com o seu destino.

Manguezal costeiro: ecossistema de carbono azul que sequestra CO2 da atmosfera

O que é carbono azul e por que ele é diferente

O termo carbono azul, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), refere-se ao carbono orgânico capturado e armazenado pelos ecossistemas marinhos e costeiros — em especial manguezais, marismas (banhados de maré dominados por gramíneas) e pradarias de gramas marinhas. A diferença em relação ao chamado “carbono verde”, típico das florestas terrestres, está na maneira como esse carbono é estocado: nos sedimentos encharcados desses ambientes, a decomposição é muito lenta, o que permite que a matéria orgânica fique presa por períodos enormes.

Outra peculiaridade é a velocidade do processo. Embora ocupem áreas relativamente pequenas em escala global, os ecossistemas de carbono azul capturam carbono em ritmos por hectare que superam os de muitas florestas tropicais. Pesquisadores do Instituto Oceanográfico da USP destacam que manguezais podem conter até duas vezes mais carbono por hectare do que florestas tropicais densas, e estimativas globais indicam que sozinhos eles podem sequestrar perto de um bilhão de toneladas de carbono por ano, algo equivalente a cerca de 10% das emissões antrópicas anuais.

Manguezais, marismas e gramas marinhas: os principais “guardiões”

Os manguezais ocupam regiões de transição entre o continente e o mar, em zonas tropicais e subtropicais. Suas árvores adaptadas à água salgada, com raízes aéreas e folhas resistentes, formam estruturas complexas que funcionam como berçário para peixes, crustáceos e aves. Sob a superfície, em solos lamacentos com pouco oxigênio, ficam guardadas camadas profundas de matéria orgânica que se acumularam ao longo de séculos.

As marismas são parecidas em função, mas dominadas por gramíneas e localizadas em regiões de clima temperado e em alguns trechos costeiros do Sul do Brasil. Já as pradarias de gramas marinhas são plantas com flor que vivem submersas, formando “campinhos” subaquáticos. Esses três ecossistemas, embora visualmente diferentes, têm em comum a capacidade de armazenar carbono em altíssimas densidades em seus solos. Segundo o relatório Planeta Vivo 2022, do WWF, esses ambientes contribuem para a mitigação climática justamente por concentrarem carbono em volumes que excedem em muito os encontrados em ecossistemas terrestres.

O potencial brasileiro: uma costa estratégica para o clima

O Brasil reúne condições raras para o carbono azul. Sua costa se estende por mais de 7 mil quilômetros e abriga uma das maiores áreas de manguezais do mundo, distribuídas do Amapá até Santa Catarina. Há ainda marismas no Sul, restingas associadas e regiões com gramas marinhas, todas com papel relevante no estoque de carbono. Em um país onde grande parte das emissões de gases de efeito estufa está ligada a desmatamento e mudanças no uso da terra, proteger esses ecossistemas é uma estratégia que combina clima, biodiversidade e economia local.

Estudos recentes conduzidos por universidades brasileiras e instituições internacionais apontam que os manguezais brasileiros têm alto potencial de mitigação climática, tanto por evitar a liberação do carbono já estocado quanto por absorver mais CO₂ no longo prazo. Esse potencial reforça a importância de políticas públicas voltadas à restauração e ao monitoramento dessas áreas, especialmente em um cenário em que o Brasil sediou recentemente discussões climáticas internacionais e busca posicionar a costa amazônica como peça central da agenda ambiental.

Ameaças que colocam o carbono azul em risco

O grande problema é que esses ecossistemas estão entre os mais ameaçados do planeta. A expansão urbana desordenada, a especulação imobiliária no litoral, a construção de portos e estradas, a contaminação por esgoto e plásticos, a abertura de viveiros de carcinicultura sem planejamento e o desmatamento direto reduzem rapidamente as áreas de manguezais e marismas. Quando esses solos são drenados ou destruídos, o carbono que estava preso há séculos volta para a atmosfera na forma de CO₂, transformando guardiões do clima em fontes de emissão.

Soma-se a isso o impacto das próprias mudanças climáticas. A elevação do nível do mar, mudanças nos ciclos de chuva, ondas de calor e o aumento da intensidade de tempestades pressionam a sobrevivência dos manguezais e das gramas marinhas. Pesquisadores brasileiros têm alertado que, embora o manguezal seja resistente a variações naturais, “alterações muito grandes em pouco tempo” comprometem sua capacidade de adaptação. Em outras palavras, o tempo de reação da natureza está sendo encurtado pela velocidade das transformações causadas pela humanidade.

Como o carbono azul pode entrar na economia e na política do clima

Em paralelo às pesquisas, o carbono azul vem ganhando espaço em discussões sobre mercado de carbono e financiamento climático. A ideia é que ações de conservação e restauração desses ecossistemas possam gerar créditos de carbono, valorizando comunidades que vivem da pesca artesanal, do extrativismo sustentável e do turismo ecológico. Para que isso funcione bem, no entanto, é fundamental garantir governança transparente, evitando greenwashing, e assegurar que populações tradicionais sejam protagonistas — e beneficiárias — desses projetos.

No campo das políticas públicas, integrar o carbono azul aos planos nacionais de combate às mudanças climáticas significa proteger zonas costeiras na lei, restaurar áreas degradadas, ampliar unidades de conservação marinhas e fortalecer a fiscalização ambiental. Acordos internacionais, programas universitários e iniciativas conjuntas com organizações como WWF e instituições ligadas ao IPCC mostram que esse tema está se tornando estratégico globalmente, e que a costa brasileira pode ser referência se houver vontade política e investimento contínuo.

Praia e ecossistema marinho costeiro com vegetação preservada

O que cada pessoa pode fazer pelos ecossistemas de carbono azul

Embora pareça um tema distante do dia a dia, proteger o carbono azul também depende de escolhas individuais e coletivas. Reduzir o consumo de plásticos descartáveis, descartar corretamente resíduos, apoiar pescadores artesanais, evitar empreendimentos imobiliários que invadem manguezais e participar de processos de licenciamento ambiental são formas concretas de pressão. Visitar manguezais por meio de turismo responsável, com guias locais, ajuda a movimentar economias que dependem desses ambientes preservados.

No campo da informação, falar sobre carbono azul ainda é um exercício novo no Brasil. Levar o tema para escolas, redes sociais e conversas familiares amplia a cobrança por políticas que protejam a costa. Cada manguezal preservado é, ao mesmo tempo, um berçário marinho, um anteparo contra ressacas e enchentes, um abrigo para espécies ameaçadas e um cofre de carbono que ajuda a estabilizar o clima global.

Conclusão: olhar para o mar com novos olhos

Falar de carbono azul é convidar o olhar a sair do interior dos continentes e prestar mais atenção ao que acontece nas franjas de lama, sal e maré. Esses ecossistemas, muitas vezes vistos como áreas “improdutivas”, revelam-se aliados centrais na luta contra a crise climática, ao guardar enormes estoques de carbono e proteger comunidades costeiras de eventos extremos. Ignorá-los é abrir mão de uma ferramenta natural poderosa, gratuita e já existente.

Que tal aproveitar a próxima ida ao litoral para observar com mais cuidado os manguezais, marismas ou trechos preservados de costa? Pesquisar projetos locais de conservação, apoiar organizações sérias e cobrar dos seus representantes políticas que valorizem o carbono azul é uma forma concreta de transformar conhecimento em ação. O clima do planeta também se decide no encontro entre a água doce e a água salgada — e cada decisão a favor da costa é uma decisão a favor do futuro.