Boto-cor-de-rosa: o guardião rosado da Amazônia e os perigos da seca extrema

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Com sua pele rosada, sorriso curioso e movimentos quase dançantes entre as árvores alagadas, o boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) é um dos animais mais emblemáticos da Amazônia. Ele protagoniza lendas, desperta a imaginação de crianças e adultos e, talvez mais importante, funciona como um verdadeiro termômetro da saúde dos rios que cortam a maior floresta tropical do planeta.

Nos últimos anos, porém, esse guardião rosado tem dado sinais preocupantes. A seca histórica de 2023 matou 209 botos apenas no Lago Tefé, no Amazonas, segundo o Instituto Mamirauá, e a contagem total chegou a 324 animais mortos entre botos-cor-de-rosa e tucuxis em toda a região. Em 2024, a estiagem voltou — ainda mais intensa. Entender quem é o boto-cor-de-rosa, por que ele importa e o que o ameaça virou uma questão urgente de ecologia e de clima.

Rio da Amazônia ao entardecer, habitat do boto-cor-de-rosa

Quem é o boto-cor-de-rosa

O boto-cor-de-rosa é o maior golfinho de água doce do mundo. Adultos podem passar dos 2,5 metros e pesar até 180 kg, segundo dados do WWF-Brasil. Ao contrário do que muita gente imagina, nem todos são rosados: filhotes nascem acinzentados e vão adquirindo a tonalidade rosa com a idade, mais intensa nos machos. A cor está ligada à circulação sanguínea na pele e fica ainda mais viva durante disputas territoriais.

Distribuído pelas bacias do Amazonas e do Orinoco, em países como Brasil, Colômbia, Peru, Bolívia, Equador e Venezuela, o boto se distingue por uma anatomia única: vértebras cervicais não fundidas, o que lhe permite girar a cabeça quase 90 graus, e nadadeiras peitorais grandes, úteis para manobrar entre raízes e troncos submersos quando a floresta alaga. É um mergulhador habilidoso, guiado pela ecolocalização em águas escuras e barrentas.

Por que o boto é fundamental para a Amazônia

Mais do que um símbolo folclórico, o boto-cor-de-rosa ocupa o topo da cadeia alimentar aquática da Amazônia. Ele se alimenta de mais de 40 espécies de peixes, ajudando a controlar populações e a manter o equilíbrio dos ecossistemas de rios, lagos e florestas alagadas. Onde há boto saudável, há peixes, há floresta funcional, há água em quantidade e qualidade — e há pessoas vivendo melhor.

O boto também é uma espécie-bandeira: sua presença atrai atenção, financiamento e turismo para regiões remotas. Em comunidades ribeirinhas, o contato com o animal aparece em lendas, rituais e atividades econômicas. A “lenda do boto” — a ideia de que ele se transforma em homem para seduzir mulheres nas noites de festa — é uma das narrativas mais conhecidas da cultura amazônica e ajudou, durante séculos, a proteger a espécie da caça.

O impacto devastador das secas de 2023 e 2024

Entre setembro e novembro de 2023, a Amazônia viveu uma das piores secas de sua história. O rio Negro, em Manaus, bateu o menor nível já registrado: 12,70 metros. Em lagos como o Tefé, a água chegou a ultrapassar 39 °C — temperatura incompatível com a vida dos botos. Segundo pesquisa publicada pelo Instituto Mamirauá e pelo ICMBio, 324 botos-cor-de-rosa e tucuxis morreram nesse período, o equivalente a até 17% da população local.

Em 2024, o cenário se repetiu em escala maior. O Serviço Geológico do Brasil registrou níveis recordes em diversos afluentes, e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já havia alertado: secas extremas na Amazônia tendem a ser mais frequentes e intensas com o aquecimento global. Para espécies longevas e de reprodução lenta como o boto — taxa anual de reposição estimada em apenas 5% — perder centenas de indivíduos em poucas semanas é um golpe potencialmente irreversível.

Outras ameaças: pesca ilegal, poluição e hidrelétricas

Mesmo em anos sem seca extrema, o boto-cor-de-rosa vive cercado de pressões. A pesca da piracatinga, peixe necrófago usado como isca, motivou por anos o abate clandestino de botos — prática proibida por moratória federal desde 2015 e renovada em 2024. Apesar da lei, relatos de caça persistem em áreas remotas, denunciados por organizações como WWF-Brasil, Greenpeace e o Instituto Aqualie.

A poluição dos rios é outra frente silenciosa. Estudos da Fiocruz Amazônia detectaram níveis alarmantes de mercúrio — provenientes do garimpo ilegal — em tecidos de botos analisados no Amazonas e no Pará. O metal pesado se acumula na cadeia alimentar, afeta a reprodução e pode causar doenças neurológicas. Some-se a isso a fragmentação de habitats por hidrelétricas, que isolam populações e dificultam a reprodução: um estudo publicado na revista Scientific Reports apontou declínio anual de até 5,9% em algumas áreas da Amazônia brasileira.

O que a ciência e as comunidades estão fazendo

Apesar do cenário difícil, há frentes de proteção em andamento. O Instituto Mamirauá, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (AM), mantém o mais longo programa de monitoramento de botos do mundo, com mais de 30 anos de dados. Durante as secas de 2023 e 2024, equipes de biólogos e veterinários resgataram dezenas de animais debilitados e os transferiram para áreas com água mais fria e oxigenada — operação inédita na conservação de cetáceos de água doce.

Na ponta social, o projeto Boto da Amazônia, parceria entre WWF-Brasil e instituições locais, instala transmissores via satélite em botos para entender seus deslocamentos e reunir evidências que embasem políticas públicas. Comunidades ribeirinhas participam do monitoramento, reportam animais mortos e recebem formação sobre boas práticas de pesca. Em 2024, dados compartilhados por essas comunidades foram decisivos para acionar o plano de emergência no Lago Tefé.

Como você pode ajudar a proteger o boto

Conservar o boto-cor-de-rosa não é tarefa exclusiva de quem mora na Amazônia. Três atitudes cotidianas fazem diferença real. A primeira é combater o desmatamento indireto: escolher carne, soja e madeira com origem certificada (selos como o Rainforest Alliance e FSC) reduz a pressão sobre a floresta que alimenta os rios. A segunda é apoiar organizações sérias de pesquisa e conservação, como Instituto Mamirauá, WWF-Brasil e ICMBio, que dependem de doações e visibilidade para manter programas em campo.

A terceira é cobrar: políticas climáticas ambiciosas, fiscalização do garimpo e manutenção de unidades de conservação não se sustentam sem pressão social. Compartilhar informação verificada, votar com consciência ambiental e denunciar crimes ao Linha Verde do IBAMA (0800 61 8080) são formas concretas de engajamento. Se puder visitar a Amazônia, prefira roteiros de turismo de base comunitária, que geram renda sem submeter o boto ao estresse de interações diretas.

Um aviso da floresta

O boto-cor-de-rosa não é apenas um animal bonito — é um aviso vivo sobre o estado da Amazônia. Quando ele morre em massa dentro de um lago superaquecido, a floresta está dizendo, com todas as letras, que algo muito sério está em curso. A mesma crise climática que empurra ondas de calor para as cidades brasileiras está cozinhando os rios do Norte e empurrando espécies inteiras para a beira do colapso.

Proteger o boto é, em última análise, proteger a Amazônia — e proteger a Amazônia é garantir chuva para a agricultura do Centro-Sul, estabilidade climática para o país e um futuro minimamente habitável para as próximas gerações. Na próxima vez que vir uma imagem desse golfinho rosado cortando a água do rio, lembre-se: ele depende de nós tanto quanto nós dependemos dele.